Cientistas descobriram a primeira evidência de peste na Idade do Bronze em um animal que não era humano. Eles detectaram o DNA da bactéria Yersinia pestis nos restos de uma ovelha domesticada que viveu há cerca de 4.000 anos.
O animal veio de Arkaim, um assentamento fortificado nos montes Urais do sul, na atual Rússia, perto da fronteira com o Cazaquistão. A descoberta sugere que o gado pode ter tido um papel na disseminação da peste durante a Idade do Bronze.
Durante a Idade Média, uma praga devastadora, a Peste Negra, eliminou cerca de um terço da população da Europa. A doença se espalhou por meio de pulgas que carregavam a Yersinia pestis.
Mas uma forma anterior da bactéria já estava presente há cerca de 5.000 anos, durante a Idade do Bronze. Diferente da praga medieval, essa versão antiga não podia ser transmitida por pulgas. Por anos, os pesquisadores tentaram entender como a doença se espalhou por uma região tão vasta sem essa via de transmissão.
A pesquisa foi publicada na revista Cell. O trabalho é uma colaboração internacional que inclui a Universidade de Arkansas, Harvard e instituições da Alemanha, Rússia e Coreia do Sul.
O Caminho da Descoberta
O arqueólogo Taylor Hermes co-lidera um grande projeto que estuda DNA antigo de animais domesticados. Ao examinar material genético preservado em ossos e dentes, sua equipe rastreia como animais como gado, cabras e ovelhas se espalharam.
“Quando testamos o DNA do gado em amostras antigas, obtemos uma sopa genética complexa de contaminação”, disse Hermes. “Isso nos dá uma oportunidade de procurar patógenos que infectaram rebanhos e seus tratadores.”
Trabalhar com DNA antigo é desafiador. Os fragmentos recuperados são extremamente pequenos e os restos de animais costumam estar menos preservados do que os humanos.
Enquanto estudavam restos de ovelhas escavados em Arkaim nas décadas de 1980 e 1990, os pesquisadores notaram algo inesperado. Um osso de ovelha continha DNA da Yersinia pestis.
“Foi um alarme para minha equipe. Esta foi a primeira vez que recuperamos o genoma da Yersinia pestis em uma amostra não humana”, explicou Hermes.
Como a Prage se Espalhou?
Os pesquisadores já haviam encontrado cepas idênticas da peste da Idade do Bronze em restos humanos localizados a milhares de quilômetros de distância. A pergunta era como a doença viajou tamanha distância.
“Tinha que ser mais do que apenas pessoas se movendo. Nossa ovelha com peste nos deu um avanço. Agora vemos isso como uma dinâmica entre pessoas, gado e algum ‘reservatório natural’ ainda não identificado”, disse Hermes.
Um reservatório natural é uma espécie animal que carrega um patógeno sem ficar doente. Na Idade Média, os ratos serviram como reservatório, enquanto as pulgas atuaram como vetores.
A Idade do Bronze foi um período em que a cultura Sintashta, associada a Arkaim, começou a gerenciar rebanhos maiores e se tornou hábil em equitação. O aumento da interação com animais e as viagens pela estepe podem ter exposto as pessoas a reservatórios de doenças no ambiente.
Hermes recentemente recebeu uma bolsa de cinco anos da Sociedade Max Planck da Alemanha, no valor de 100.000 euros, para continuar as escavações nos Urais do Sul. Sua equipe buscará restos humanos e animais adicionais que possam conter traços da bactéria.
Embora esses eventos tenham ocorrido há milhares de anos, Hermes acredita que as descobertas trazem uma mensagem importante para hoje. A expansão de atividades econômicas em ambientes naturais pode perturbar ecossistemas e aumentar o risco de transbordamento de doenças.
“Devemos apreciar os delicados mecanismos internos dos ecossistemas que podemos perturbar e visar preservar o equilíbrio”, concluiu o pesquisador.

