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    Metais tóxicos em bananas pós-desastre

    Juliana MoraesBy Juliana Moraes21/02/20267 Mins Read
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    Pesquisadores que investigam cultivos em solo contaminado pelo desastre de mineração de 2015 no Brasil descobriram que metais tóxicos estão passando da terra para plantas comestíveis.

    Bananas, mandioca e cacau foram encontrados absorvendo elementos como chumbo e cádmio, com as bananas mostrando um risco potencial à saúde para crianças menores de seis anos. Embora os adultos enfrentem perigo imediato menor, cientistas alertam que a exposição de longo prazo pode trazer consequências cumulativas para a saúde.

    Mais de uma década após o colapso catastrófico da barragem de Fundão, cientistas encontraram evidências preocupantes de que os rejeitos de mineração ainda estão chegando a alimentos do dia a dia.

    Pesquisadores em ciência do solo, engenharia ambiental e saúde pública da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e da Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, investigaram se os cultivos perto do estuário do Rio Doce são seguros para comer. A área em Linhares, Espírito Santo, está exposta a rejeitos de mineração de ferro desde que a barragem de Fundão rompeu em Minas Gerais em novembro de 2015.

    A equipe focou em bananas, mandioca e polpa de cacau cultivadas em solo afetado pelo desastre. Eles examinaram os níveis de cádmio, cromo, cobre, níquel e chumbo, metais ligados aos óxidos de ferro, que são o componente principal dos rejeitos. As descobertas sugerem que comer bananas cultivadas em solo contaminado pode apresentar um risco potencial à saúde para crianças de seis anos ou menos.

    “Nosso grupo estuda os impactos do rompimento da barragem há anos. Obtivemos as primeiras amostras sete dias após o acidente e imediatamente entendemos que havia um risco iminente de contaminação de plantas, solo, água e peixes. Mas a pergunta permanecia: essa contaminação representa um risco para a saúde humana?” lembra Tiago Osório, agrônomo e professor do Departamento de Ciência do Solo da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP.

    O estudo, publicado na Environmental Geochemistry and Health, explica como as plantas absorvem elementos potencialmente tóxicos dos rejeitos de mineração e os armazenam em tecidos comestíveis. Também descreve como essas substâncias podem entrar na cadeia alimentar humana. A pesquisa faz parte do trabalho de doutorado de Amanda Duim na ESALQ. Sua tese gerou sete publicações internacionais e recebeu dois prêmios importantes em 2025: o Prêmio Tese USP em Sustentabilidade e o Prêmio Capes de Tese, concedido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) do Ministério da Educação. Duim recebeu apoio da FAPESP por meio de uma bolsa de doutorado.

    Amanda Duim, autora principal do estudo, diz que a pesquisa se destaca por ligar diretamente o risco à saúde humana à transferência de elementos tóxicos do solo para as culturas. “O teor de óxido de ferro no solo, que é o principal constituinte dos rejeitos, se correlaciona com seu teor na planta. Estudamos a passagem dos constituintes dos rejeitos no solo para a água, e depois da água para a planta, incluindo suas folhas e frutos.”

    “Primeiro, precisamos saber quais elementos estão lá e em que quantidades para entender a dinâmica bioquímica de sua liberação”, explica Osório.

    Duim começou sua pesquisa de doutorado em 2019 explorando se plantas de áreas alagáveis poderiam ajudar a restaurar ambientes contaminados. Ela avaliou tanto cultivos agrícolas quanto espécies nativas. “Avaliamos espécies cultivadas e nativas. No caso destas últimas, queríamos saber como elas afetam a dissolução do óxido de ferro e, nesse processo, entender se e como os elementos tóxicos associados a esses rejeitos entram na planta, já que diferentes espécies os acumulam de forma diferente”, disse ela. “A ideia era encontrar a melhor espécie nativa para limpar ambientes contaminados, e encontramos mais de uma espécie que pode cumprir essa função, com resultados já publicados. No caso das espécies cultivadas, queríamos saber se os elementos tóxicos seriam transferidos para os frutos e partes comestíveis das plantas.”

    Para medir a contaminação, os pesquisadores coletaram cuidadosamente amostras de solo e plantas. Eles lavaram e pesaram as plantas frescas, depois as secaram e pesaram novamente. Raízes, caules, folhas e frutos descascados foram moídos separadamente para análise. “Dissolvemos o ‘pó da planta’, transformando-o em uma solução usando vários ácidos, e determinamos a concentração na solução. Convertemos o cálculo da concentração do material na solução e comparamos com o peso do material diluído, obtendo assim a concentração de elementos tóxicos em miligramas por quilo de biomassa seca”, descreve Duim.

    Em bananas e mandioca, quase todos os elementos tóxicos, exceto o cromo, foram encontrados em quantidades maiores abaixo do solo, nas raízes e tubérculos. O cacau se comportou de forma diferente, com níveis elevados em caules, folhas e frutos. Na polpa de cacau, as concentrações de cobre e chumbo excederam os limites estabelecidos pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

    Quando a equipe descobriu que algumas porções comestíveis continham níveis de elementos tóxicos acima dos padrões recomendados, eles conduziram uma avaliação formal de risco à saúde.

    Os cientistas calcularam o quociente de risco, o índice de risco e o índice de risco total para pessoas que consomem bananas, rizomas de mandioca e polpa de cacau. Eles avaliaram crianças (menores de seis anos) e adultos (maiores de 18 anos) separadamente. O quociente de risco compara a ingestão diária estimada de uma substância por uma pessoa a uma dose de referência considerada segura. O índice de risco total ajuda a determinar o risco potencial à saúde não cancerígeno da exposição aos elementos tóxicos. Um índice abaixo de 1 indica baixo risco.

    “Esses elementos existem naturalmente no ambiente. Somos expostos a eles em concentrações mais baixas. Mas no caso de um desastre como o de Mariana, quando espera-se que a exposição aumente, precisamos ter cuidado extra”, diz Tamires Cherubin, doutora em ciências da saúde e coautora do estudo. Métodos padrão avaliam a biodisponibilidade desses elementos, já que certas concentrações podem levar a problemas renais e cardíacos, desconforto gastrointestinal e danos pulmonares se inalados. Efeitos de curto prazo também podem incluir irritação na pele e problemas nos olhos.

    Os pesquisadores consideraram o quanto os moradores consomem de alimentos cultivados localmente, usando dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Eles também consideraram por quanto tempo os indivíduos podem estar expostos, diferenças no peso corporal entre crianças e adultos, e o tempo necessário para efeitos nocivos se desenvolverem.

    “De acordo com as doses diárias de ingestão de referência para contaminantes cobertos pela literatura, consideramos os limites de 0,05 mg/kg-1 para a presença de cádmio em frutas e 0,1 mg/kg-1 em tubérculos, 0,5-1,0 mg/kg-1 para a presença de cromo, 20,0 mg/kg-1 para cobre, 0,5-1,0 mg/kg-1 para níquel, 0,8-2,3 mg/kg-1 para chumbo e 50,0 mg/kg-1 para zinco”, explica Cherubin.

    Para a maioria dos metais, os valores do índice de risco total ficaram abaixo de 1, indicando nenhum risco não cancerígeno significativo para adultos que consomem esses alimentos do estuário do Rio Doce. No entanto, o índice para bananas excedeu 1 para crianças, sinalizando possíveis preocupações com a saúde. Níveis elevados de chumbo foram o principal fator, e as concentrações de cádmio em bananas também ultrapassaram as recomendações da FAO. Os pesquisadores observam que a exposição de longo prazo ao chumbo, mesmo em níveis baixos, pode afetar permanentemente o desenvolvimento cerebral, potencialmente diminuindo o QI e contribuindo para problemas de atenção e comportamento.

    A equipe alerta que comer esses alimentos por muitos anos pode aumentar o risco de desenvolver câncer. Eles enfatizam a necessidade de monitoramento contínuo da área e mais estudos sobre os efeitos da exposição prolongada a baixas doses de metais tóxicos.

    Juliana Moraes

    Técnica em registros médicos e informações de saúde com paixão por melhorar a eficiência e a precisão dos registros de saúde. Acredito que uma boa gestão das informações de saúde é fundamental para fornecer o melhor cuidado possível aos pacientes.

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