Resumo:
Um estudo recente mostra que o glioblastoma, o câncer cerebral mais agressivo, utiliza o açúcar de maneiras diferentes das células cerebrais saudáveis. Enquanto o tecido cerebral normal transforma o açúcar em energia e neurotransmissores, as células do glioblastoma desviam-no para produzir DNA e RNA, impulsionando o crescimento do tumor.
Pesquisadores descobriram que restringir certos aminoácidos na dieta de camundongos diminuiu a progressão do tumor e melhorou os resultados do tratamento, trazendo esperança para novas terapias baseadas no metabolismo. Essa pesquisa sugere que, no futuro, dietas específicas e medicamentos direcionados possam ajudar a aumentar a sobrevida de pacientes com esse câncer devastador.
Fatos importantes:
- Desvio Metabólico: O cérebro saudável usa açúcar para energia; os tumores redirecionam para a produção de DNA e RNA para crescimento.
- Estratégia Alimentar: Restringir aminoácidos como serina e glicina em camundongos melhorou a resposta ao tratamento.
- Potencial Clínico: Resultados indicam que dietas especializadas podem um dia complementar terapias para glioblastoma.
O glioblastoma é considerado um dos tipos mais letais de tumor cerebral. A maioria dos pacientes diagnosticados com essa doença vive apenas um ou dois anos. Isso acontece porque as células normais do cérebro se tornam agressivas, crescendo rapidamente e invadindo o tecido ao redor.
Essas células cancerígenas apresentam um metabolismo diferente das células saudáveis vizinhas. Um estudo publicado em uma revista científica de prestígio seguiu como a glicose é utilizada nas células tumorais do glioblastoma.
Cientistas de um centro de pesquisa especializado em câncer uniram forças com neurologistas e engenheiros biomédicos para entender melhor como os tumores cerebrais consomem nutrientes. O que eles descobriram foi surpreendente. Ao alterar a dieta de modelos em camundongos, conseguiram desacelerar e até bloquear o crescimento dos tumores.
Os tratamentos já comuns incluem cirurgia, seguidos de radioterapia e quimioterapia. No entanto, em muitos casos, os tumores retornam e se tornam resistentes aos tratamentos. Pesquisas anteriores indicaram que essa resistência acontece devido à reestruturação do metabolismo nas células cancerígenas.
Como as Células Cancerígenas Usam Açúcar
O metabolismo é o processo que nosso corpo utiliza para quebrar moléculas como carboidratos e proteínas, permitindo que as células as utilizem ou construam novas moléculas. O que a equipe queria descobrir era se as células do cérebro e as cancerígenas utilizavam o açúcar de forma distinta.
Para isso, injetaram pequenas quantidades de glicose marcada em camundongos e também em pacientes com tumores cerebrais. Essa abordagem permitiu rastrear como o açúcar era utilizado. Eles perceberam que, embora tanto os tecidos normais quanto as células tumorais usassem açúcar, o faziam para propósitos diferentes.
“É como uma bifurcação metabólica,” explicou um dos pesquisadores. O cérebro direciona o açúcar para produzir energia e neurotransmissores, que são essenciais para o pensamento e o funcionamento saudável. Em contrapartida, os tumores redirecionam o açúcar para produzir materiais que ajudam na criação de mais células cancerígenas.
Os pesquisadores observaram que os tecidos saudáveis utilizavam a glicose para gerar energia e fabricar substâncias químicas que garantem o bom funcionamento do cérebro. Contudo, os glioblastomas desligavam esses processos e convertiam o açúcar em moléculas como nucleotídeos, que são os blocos de construção do DNA e RNA, essenciais para crescimento e invasão de tecidos adjacentes.
Dietas com Restrição de Aminoácidos
Além disso, a equipe notou outras diferenças importantes. O cérebro normal usava açúcar para produzir aminoácidos, que são os blocos de construção das proteínas. Já os cânceres no cérebro pareciam desligar essa via e passavam a buscar esses aminoácidos no sangue.
Esse achado levou os pesquisadores a considerar se a redução dos níveis de certos aminoácidos no sangue poderia impactar o câncer cerebral sem afetar o cérebro normal. Eles testaram essa ideia em camundongos que seguiram uma dieta restrita em aminoácidos.
“Quando eliminamos os aminoácidos serina e glicina da dieta dos camundongos, observamos que eles responderam melhor à radiação e à quimioterapia, e os tumores ficaram menores em comparação aos camundongos que receberam serina,” comentou um dos autores do estudo.
Baseando-se nas medições em camundongos, a equipe também elaborou modelos matemáticos que podem rastrear como a glicose está sendo utilizada em diferentes caminhos metabólicos, ajudando na identificação de alvos para medicamentos.
Um dos pesquisadores comparou as vias metabólicas a estradas e os medicamentos como barreiras que dificultam o tráfego. “Colocar uma barreira em uma rodovia movimentada terá um impacto maior do que em uma estrada rural tranquila,” disse ele.
No cérebro normal, a absorção do aminoácido serina do sangue pode ser comparada a uma estrada rural silenciosa. Porém, o câncer no cérebro se assemelha a uma rodovia movimentada, que apresenta uma oportunidade de direcionar o tratamento especificamente para o câncer.
A equipe está se preparando para iniciar ensaios clínicos em breve, testando se dietas que limitam os níveis de serina no sangue podem ajudar pacientes com glioblastoma. “Essa é uma colaboração de várias áreas da universidade,” finalizou um dos autores. “É um estudo que não poderia ser realizado por um único pesquisador e sou grato por fazer parte dessa equipe que busca descobrir novas maneiras de melhorar o tratamento dos nossos pacientes.”

