Comportamentos compulsivos são frequentemente atribuídos a hábitos incontroláveis que sobrepõem o autocontrole. Mas uma nova pesquisa da Universidade de Tecnologia de Sydney sugere que a inflamação cerebral pode ter um papel surpreendente.
Por anos, cientistas acreditaram que comportamentos compulsivos acontecem quando as pessoas ficam presas em um “ciclo de hábito” que substitui o autocontrole. No entanto, uma nova pesquisa com ratos da Universidade de Tecnologia de Sydney (UTS) indica que a história pode ser mais complexa.
Comportamentos compulsivos aparecem em uma série de condições de saúde mental, incluindo transtorno obsessivo-compulsivo, transtornos por uso de substâncias e transtorno do jogo. Nessas condições, as pessoas continuam repetindo certas ações mesmo quando elas levam a consequências prejudiciais. Milhões de pessoas em todo o mundo são afetadas.
A autora sênior, Dra. Laura Bradfield, neurocientista comportamental, explicou que os hábitos têm um propósito importante. Eles nos permitem funcionar no piloto automático durante tarefas rotineiras, como escovar os dentes ou dirigir por uma estrada familiar, liberando energia mental para outros pensamentos.
“No entanto, se estamos dirigindo e uma criança entra na rua, de repente nos tornamos conscientes do nosso entorno e focamos no que estamos fazendo. Isso envolve retomar o controle consciente, pensar sobre possíveis resultados e ajustar nosso comportamento”, disse a Dra. Bradfield.
Em comportamentos compulsivos, como lavar as mãos repetidamente ou jogar em máquinas caça-níqueis, a teoria predominante tem sido a de que essas ações se tornam hábitos profundamente enraizados. De acordo com essa visão, o comportamento ocorre automaticamente, dificultando que as pessoas recuperem o controle cognitivo.
“Estudos de imagem cerebral mostram que é comum que pessoas com transtornos compulsivos tenham inflamação no estriado, uma região do cérebro envolvida na escolha de ações, então decidimos testar se induzir inflamação nessa região em ratos aumentaria o comportamento habitual.”
O estudo foi liderado pelo Dr. Arvie Abiero durante sua pesquisa de doutorado na UTS e foi recentemente publicado na Neuropsychopharmacology. Os pesquisadores examinaram como os ratos aprendem comportamentos e como regulam suas ações. Quando a inflamação foi desencadeada no estriado, os resultados foram inesperados. Em vez de se tornarem mais automáticos ou guiados por hábito, os ratos mostraram uma tomada de decisão mais deliberada e esforçada.
“Surpreendentemente, os animais se tornaram mais orientados por objetivos e continuaram a ajustar seu comportamento com base nos resultados, mesmo em situações onde os hábitos normalmente assumiriam o controle”, disse a Dra. Bradfield.
A equipe rastreou essas mudanças para os astrócitos, células em forma de estrela no cérebro que dão suporte aos neurônios. Quando a inflamação ocorreu, os astrócitos se multiplicaram e interromperam os circuitos neurais próximos que controlam o movimento e a tomada de decisão.
Essas descobertas podem ter implicações para psicólogos, psiquiatras, pacientes e cuidadores que trabalham com transtornos compulsivos. Em vez de refletir uma perda de controle devido a hábitos incontroláveis, alguns comportamentos compulsivos podem resultar de um controle deliberado excessivo, embora mal direcionado.
Os pesquisadores sugerem que medicamentos direcionados aos astrócitos ou tratamentos que reduzem a neuroinflamação podem fornecer novas opções terapêuticas. Estratégias anti-inflamatórias mais amplas, como exercícios regulares ou melhora do sono, também podem ter um papel.
“Há muito comportamento compulsivo que não se encaixa perfeitamente na hipótese do hábito. Se alguém está lavando as mãos continuamente porque está preocupado com germes, essa pessoa não está fazendo isso sem pensar, está conscientemente escolhendo fazer esse esforço”, disse a Dra. Bradfield.
“Nossas descobertas oferecem uma nova explicação para esses comportamentos, que vai contra a visão aceita. Com base nisso, é possível que novos tratamentos e intervenções possam ser desenvolvidos para tratar essas doenças e transtornos de forma mais eficaz”, disse ela.
