Um estudo de grande escala realizado por pesquisadores da Universidade de Liverpool investigou se o uso de valproato de sódio, um remédio comum para epilepsia e transtorno bipolar, afeta a fertilidade masculina. Os resultados mostraram que não há evidências significativas de que ele prejudique a fertilidade de homens com essas condições.
O valproato de sódio é um tratamento bastante eficaz e utilizado por milhões de pessoas ao redor do mundo. Contudo, em alguns países, como o Reino Unido, há regulamentações restritas para o uso em homens, a menos que outras opções de tratamento não tenham funcionado.
Essas regras são, em parte, devido aos riscos conhecidos do medicamento durante a gravidez. Aproximadamente 1 em cada 10 bebês expostos ao valproato desenvolve malformações, e até 4 em cada 10 podem apresentar problemas no desenvolvimento. Por conta disso, as orientações para prescrição em mulheres que podem engravidar são bastante rigorosas.
Preocupações também surgiram em relação a possíveis riscos para os homens, como a redução da fertilidade e efeitos nos filhos no futuro. No entanto, os pesquisadores de Liverpool destacam que essas inquietações são baseadas, principalmente, em estudos com animais que usaram doses muito superiores às utilizadas em pacientes e em pequenos estudos em humanos, que não são consistentes.
O novo estudo, que foi publicado em uma importante revista científica, analisou dados da TriNetX, a maior base de dados de saúde do mundo, que abrange mais de 200 organizações de saúde em 19 países. Essa pesquisa comparou quase 92 mil homens com epilepsia ou transtorno bipolar que usaram valproato com cerca de 536 mil homens que tinham as mesmas condições, mas não tomaram o medicamento.
Os pesquisadores utilizaram um método estatístico avançado, conhecido como “matching por escore de propensão”, para garantir que os dois grupos fossem semelhantes em idade, saúde, uso de outros medicamentos para epilepsia, estilo de vida e outros fatores que poderiam influenciar os resultados. As diferenças na quantidade de diagnósticos de infertilidade, contagem de espermatozoides e atrofia testicular entre os grupos foram mínimas (menos de 1%) e os níveis hormonais nos homens que tomaram valproato permaneceram dentro da faixa normal.
O médico responsável pelo estudo declarou que, na maior pesquisa desse tipo, foi encontrado pouco indício de que o valproato prejudica a fertilidade masculina, em comparação com os efeitos da epilepsia ou transtorno bipolar, que também podem impactar a fertilidade.
Estes resultados são relevantes porque o medo de que o valproato cause efeitos colaterais na fertilidade pode fazer com que homens interrompam o uso do medicamento. Isso pode levar a situações graves, como crises de epilepsia descontroladas, piora na saúde mental, internações ou até morte em casos extremos. É importante considerar o cenário mais amplo sobre o que pode estar causando a infertilidade, já que a própria epilepsia pode reduzir as taxas de fertilidade.
A epilepsia atinge mais de 70 milhões de pessoas no mundo, enquanto o transtorno bipolar impacta mais de 40 milhões. O valproato continua sendo um dos principais tratamentos para homens que foram recentemente diagnosticados com epilepsia generalizada e é amplamente utilizado também para o transtorno bipolar. No Reino Unido, as autoridades destacaram os possíveis riscos de fertilidade e os efeitos transgeracionais (dano a filhos de homens que usam valproato), observados em estudos com animais, embora reconheçam que os dados em humanos são limitados. O estudo atual aborda as preocupações sobre os riscos de fertilidade, mas pesquisas adicionais são necessárias para entender se há efeitos transgeracionais.
Os autores do estudo observaram que a pesquisa utilizou medidas indiretas de fertilidade, como códigos de diagnóstico, níveis hormonais e parâmetros do sêmen, ao invés de resultados diretos de concepção. Não foram coletados dados sobre taxas de natalidade ou fertilidade de parceiras.
É necessário um aprofundamento nas pesquisas, especialmente sobre os resultados reais da concepção, para desenvolver ainda mais essas descobertas. No entanto, espera-se que as evidências ajudem a formular diretrizes clínicas futuras e ofereçam uma base mais equilibrada para orientar homens sobre os potenciais riscos e benefícios do valproato. Qualquer pessoa que tenha dúvidas ou preocupações sobre seu tratamento deve sempre procurar orientação de um profissional de saúde.

