Estudo Revela Sinais do Cérebro Associados à Extinção de Memórias de Medo
Pesquisadores identificaram pela primeira vez os sinais do cérebro que estão ligados à extinção de memórias de medo em humanos. Eles utilizaram eletrodos implantados e uma técnica chamada Análise da Similaridade Representacional (RSA) para entender esse fenômeno.
Durante os experimentos, descobriram que a atividade de ondas theta na amígdala aumentava quando estímulos que antes eram desagradáveis eram re-aprendidos como seguros. Esse fenômeno é importante, pois ajuda a entender melhor como gerenciar memórias relacionadas ao medo.
As memórias de extinção apresentaram forte dependência do contexto. Isso explica por que o medo tende a voltar após o término das terapias. Os achados podem abrir novas possibilidades para tratamentos de distúrbios relacionados ao medo, como o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e a ansiedade.
Fatos Principais:
- Atividade da Amígdala: A extinção do medo resulta em aumento nas oscilações theta, indicando a aprendizagem sobre segurança.
- Dependência do Contexto: As memórias de extinção estão ligadas a contextos terapêuticos, facilitando a recaída fora desses ambientes.
- Validação em Humanos: Esta é a primeira evidência direta em humanos que confirma mecanismos já observados em estudos com animais.
A supressão de memórias relacionadas ao medo é crucial para comportamentos adaptativos. Isso ajuda as pessoas a inibir reações que poderiam levar a problemas psiquiátricos, como a ansiedade ou a depressão.
Recentemente, teorias surgiram, sugerindo que a extinção dessas memórias ocorre quando novas memórias, que são fortemente dependentes do contexto, são formadas e suprimem a resposta de medo inicial.
Experimentos realizados em camundongos apoiam essa ideia. Eles mostram que certas oscilações de sinais registrados nas regiões cerebrais da amígdala e do hipocampo estão ligadas ao aprendizado e à extinção de memórias de resposta ao medo.
Porém, essa relação ainda não havia sido confirmada no cérebro humano.
Em um estudo publicado, pesquisadores da Universitat Autònoma de Barcelona e da Ruhr-Universität Bochum, na Alemanha, descreveram pela primeira vez os sinais eletrofisiológicos associados à extinção de memórias aversivas em humanos.
Os cientistas aplicaram a técnica de Análise da Similaridade Representacional (RSA) para estudar as características da memória humana. Essa abordagem fornece informações sobre como diferentes regiões do cérebro representam informações.
“Com essa técnica, conseguimos entender melhor as memórias episódicas, superando os métodos tradicionais que focavam apenas na ativação cerebral”, explicou Daniel Pacheco-Estefan, autor principal do estudo.
A pesquisa detalhou as representações neurais ligadas à formação e à extinção de memórias associativas. Os cientistas usaram um design experimental inovador. Este incluiu diversos estímulos e contextos em cada fase do experimento (aquisição de memória, extinção e testes).
Assim, eles puderam estudar as representações subjacentes ao condicionamento clássico em seres humanos. Também validaram, pela primeira vez, hipóteses de estudos anteriores feitos com modelos animais.
O estudo contou com a participação de 49 pacientes epilépticos, que já tinham eletrodos implantados no cérebro para o tratamento da doença. Eles foram expostos a uma série de imagens neutras, como secador de cabelo e torradeira, associando algumas delas a um estímulo desagradável, como um som alto.
A seguir, o processo foi repetido, mas desta vez sem a associação com o estímulo negativo. Esse procedimento gerava a extinção das memórias aversivas.
Entre os principais achados, os pesquisadores notaram um aumento na atividade theta na amígdala ao apresentar estímulos desagradáveis durante a aprendizagem de extinção. Isso sugere que esse sinal está informando sobre segurança.
Além disso, observaram uma maior similaridade representacional entre os itens que foram punidos durante a extinção. Ou seja, aqueles que tinham sido associados aos sons negativos.
“Esse resultado é consistente com pesquisas anteriores que identificaram uma assinatura representacional generalizada para memórias desagradáveis, favorecendo seu retorno involuntário em diversas situações, especialmente em pessoas que passaram por experiências traumáticas”, destacou Daniel Pacheco-Estefan.
O estudo também mostrou que as memórias de extinção dependem muito do contexto em que foram formadas. Recuperar a memória de medo é mais provável do que acessar a memória de segurança durante a fase de teste, quando as representações de contextos de extinção estão mais presentes e específicas.
Para Pacheco-Estefan, “esse achado é importante para entender por que memórias de medo que já foram extintas voltam a aparecer quando os pacientes saem do ambiente terapêutico”.
Nikolai Axmacher, coordenador da pesquisa na Ruhr-Universität, acrescenta que “parece que as memórias de extinção são armazenadas como memórias de episódios únicos. Para o paciente, a situação segura pode ser vista como uma exceção que dificilmente irá se repetir”.
Em resumo, esses resultados pioneiros abrem novas possibilidades para investigar os mecanismos fundamentais da memória episódica e autobiográfica no ser humano. Isso poderia inspirar o desenvolvimento de intervenções terapêuticas mais eficazes para pacientes com estresse pós-traumático ou distúrbios de ansiedade.
Esse tipo de pesquisa é essencial para entendermos como o cérebro lida com memórias que podem ser traumáticas e como podemos contar com terapias que tratem esses desafios de maneira eficaz. A partir dessas descobertas, espera-se que possamos avançar nas estratégias de tratamento, melhorando a qualidade de vida de muitos indivíduos.
Assim, fica claro que entender melhor as memórias de medo não só ajuda na terapia, mas também expande nosso conhecimento sobre a complexidade do cérebro humano e suas reações. O futuro da psicologia e neurologia promete ser mais otimista à medida que novas descobertas surgem.

