Ricky Hatton, um famoso boxeador, faleceu recentemente, reabrindo a conversa sobre a saúde mental no esporte. Ele falava abertamente sobre sua luta contra a depressão, que começou após sua derrota em 2007 para Floyd Mayweather, além de seu problema com drogas e álcool.
Pesquisas mostram que a mentalidade de um boxeador — como ele vê o sucesso, sua identidade e a derrota — pode se tornar prejudicial nesse esporte de alto risco. A pressão para vencer a todo custo torna até mesmo uma única derrota algo devastador.
Quando um boxeador perde, isso não é apenas um revés profissional, mas pode desencadear uma crise de identidade, acompanhada de vergonha, culpa e fracasso pessoal. Essa pressão é ainda maior para aqueles que saem de origens humildes e alcançam fama e reconhecimento.
Para um boxeador, o medo de se tornar irrelevante pode desencadear ansiedade e depressão. Quando mostrar vulnerabilidade é visto como fraqueza, muitos guardam seus sentimentos, o que aumenta ainda mais sua luta interna.
Hatton reconheceu em 2020 que problemas de saúde mental são comuns no boxe. O esporte é extremamente exigente, causando traumas repetidos na cabeça e no corpo dos lutadores. O risco de lesão cerebral traumática (TBI) é constante.
Esse tipo de trauma está ligado a várias complicações neurológicas, como concussões e sua síndrome pós-concussão, onde os sintomas podem persistir por meses ou mais. Também pode levar a problemas como depressão, ansiedade e, em casos extremos, até a morte no ringue.
A TBI repetitiva está relacionada à encefalopatia traumática crônica (CTE), uma doença progressiva que afeta a memória, o humor e o comportamento, representando um dos maiores riscos à saúde a longo prazo.
Enquanto as lesões cerebrais são físicas, seu impacto na saúde mental é imenso. O dano cerebral pode prejudicar a regulação das emoções, aumentar a impulsividade e tornar as pessoas mais vulneráveis à depressão e pensamentos suicidas. Contudo, o boxe pouco oferece em termos de suporte a longo prazo, algo que Hatton criticou.
Fora do ringue, os boxeadores enfrentam outras pressões. As drásticas mudanças de peso para competições podem impactar a química cerebral e desestabilizar o humor. A solidão intensa dos treinos e a pressão para manter uma boa imagem pública aumentam o estresse.
Além disso, a aposentadoria precoce é um desafio. Muitos atletas se aposentam na casa dos 30 anos e essa mudança pode ser difícil. Ao invés de alivio, a aposentadoria pode ser um rupture: a rotina diária acaba, a euforia das vitórias desaparece e com isso, um sentimento de falta de propósito e identidade pode surgir.
Os atletas têm suas identidades muito ligadas ao desempenho e à imagem pública, e se afastar pode parecer como um desaparecimento. Muitos se aposentam sem segurança financeira ou um plano para o futuro, o que os torna vulneráveis ao isolamento e à deterioração psicológica.
O boxe sempre foi uma alternativa viável para aqueles que vêm de classes trabalhadoras, proporcionando fama e respeito. Hatton, assim como Tyson Fury e Frank Bruno, começou de baixo e se tornou um campeão mundial e ícone nacional.
A subida dos ginásios modestos até os holofotes de Las Vegas pode ser íngreme, e a queda pode ser ainda mais profunda. O abismo entre de onde os lutadores saem e onde chegam pode criar uma sensação profunda de deslocamento. Para atletas de classes trabalhadoras, há uma pressão enorme para se manter forte e bem-sucedido, mesmo quando se sentem mal por dentro.
Essa situação é agravada pela cultura de hipermasculinidade que ainda permeia o boxe. A mentalidade de “não mostrar fraqueza” pode forjar campeões no ringue, mas pode ser fatal fora dele. A cultura do esporte — baseada em resiliência, força e silêncio — frequentemente impede que os lutadores busquem ajuda. O estigma sobre saúde mental faz com que muitos enfrentem batalhas internas em silêncio, onde a solidão prevalece.
Embora o boxe ensine resiliência, controle emocional e autoconsciência, também oferece espaços seguros. Muitos ginásios servem como refúgios, oferecendo estrutura e orientação, especialmente para aqueles que foram negligenciados pela sociedade. Mas esse esporte também revela os perigos de lutar sozinho.
Agora, é necessário mudar a cultura do boxe para que a vulnerabilidade tenha o mesmo peso que a coragem, garantindo suporte mesmo após o último golpe. Iniciativas como a Fundação Frank Bruno fornecem apoio essencial. Criada após a luta pública de Bruno contra o transtorno bipolar, a fundação promove programas de não contato para ensinar que buscar ajuda é uma demonstração de força.
O Box In Mind, da Inglaterra, apoiado pelo boxeador Jordan Reynolds, que também fala sobre suas próprias dificuldades emocionais, incentiva as pessoas a não sofrerem em silêncio.
Após a morte de Ricky Hatton, Chris Eubank Snr apelou para que a indústria do boxe “cuide dos seus lutadores”. Com apoio adequado em saúde mental, triagens médicas, programas de transição de carreira e diálogos abertos sobre bem-estar emocional, o boxe pode continuar a mudar vidas, mesmo após os atletas pendurarem as luvas.
Precisamos lembrar que ganhar a todo custo nunca deve significar perder a si mesmo fora do ringue.

